Se para o homem pré-histórico a caça era uma atividade corriqueira, hoje, sem dúvida, é um assunto controvertido. Enquanto alguns consideram-na uma atividade destrutiva, há quem afirme que é uma necessidade básica de sobrevivência ou mesmo de livrar os campos de predadores indesejados. Polêmicas à parte, o que se sabe é que tal atividade, com o passar do tempo, começou a evoluir, acentuando-se cada vez mais o seu espírito esportivo.

 

Retriever.

Embora o homem pré-histórico não a praticasse por esporte, a caça, com tal sentido, é muito antiga. Os antigos egípcios já a exerciam. Mas foi com o homem moderno que este espírito esportivo se delineou de fato. No século XIX, ele já estava com suas regras bem estabelecidas, e logo se tornou o passatempo predileto dos nobres ingleses. O esporte era dispendioso. Assim, seus praticantes sempre foram pessoas ricas. Além da manutenção das armas e da compra de munições, era preciso custear as despesas dos auxiliares: os cães.

Mesmo apesar dos altos custos, os desportistas não poupavam economias no aprimoramento dos cães. No entanto, como os animais existentes nem sempre correspondiam às necessidades, foram feitos diversos acasalamentos a fim de obter um tipo forte, de tamanho moderado, boa ossatura e com grande habilidade para buscar a presa e entregá-la na mão do caçador. Na verdade, esses homens queriam obter um cão de caça completo, capacitado para os mais diversos tipos de terreno-água, pântano ou matas fechadas. Para se chegar ao tipo almejado, foram feitos cruzamentos experimentais de setters, spaniels de água e o pequeno e leve Terranova.

Nesse contexto que surgiram os Retrievers, animais que se destacavam como excelentes cães de busca. Notabilizando-se como ótimos apanhadores da presa abatida e perdida, não tardou para que se tornassem a coqueluche dos ingleses.

Foi nesse ínterim que se iniciou o processo de seleção do Golden Retriever…
A origem da raça está dividida em duas partes: a lenda e a original.

 

A Lenda

Como outras raças caninas puras, o Golden tem ancestrais britânicos (seu nome, em inglês, significa: golden = dourado; retriever = aquele que recolhe). É resultado de muitos anos de uma cuidadosa e bem planejada seleção, feita no século XIX por Sir Dudley Marjoriebanks – mais tarde o primeiro Lorde Tweedmouth – numa fazenda na Escócia. Em seu trabalho o Lorde almejou um cão capaz de buscar o animal abatido e entregá-lo, intacto, a seu dono.

A história original sobre a raça foi refutada a partir de 1952, quando veio a público um manuscrito de Tweedmouth contando como de fato teria ocorrido a seleção. A descoberta dos registros foi feita, segundo o Complete Dog Book do American kennel Cub, pelo sexto conde de Ilchester, sobrinho do Lorde, historiador e esportista.

Lorde Tweedmouth e o progenitor da raça Golden Retriever, Nous.

A versão anterior sobre o aparecimento da raça, agora tida como lenda, conta que tudo teria começado com a suposta compra dos cães de um circo russo feita pelo Lorde Tweedmouth em Brighton, sul da Inglaterra. O nobre senhor teria sido atraído pela esperteza, inteligência e pelo tom amarelado dos olhos daqueles cães de mais de 45 quilos, pelagem grossa e pesada e com cerca de 76 cm de altura na cernelha.

O Lorde interessou-se por dois deles mas teve de adquirir o grupo todo, composto por 8 cães. De Brighton, ele os teria levado para uma propriedade chamada Guisachan, na Escócia, onde caçava cervos. Mais tarde para reduzir o tamanho e melhorar o faro dos cães, ele teria feito um cruzamento com o Bloodhound.

Alguns dos primeiros criadores deslocaram-se mesmo às montanhas do Cáucaso Russo, em busca de novas linhagens. Contudo, os registros dos canis demonstram a verdadeira história.

 

Embora haja cães pastores russos e raças como a Hovawart que parecem versões grandes do Golden, as suas personalidades são muito mais territoriais, reservadas e desconfiadas.

 

 

A História Original

Em seu livro, o Lorde Tweedmouth – que anotou detalhes da obra feita em Guisachan entre 1835 e 1890 – não menciona a compra dos cães de circo. Conta, porém, que adquiriu em 1865 o único exemplar amarelo, de uma ninhada de cães pretos encaracolados, chamado Nous, precisamente em Brighton, e o levou para Guisachan.

Nous acasalou com uma Tweed Water Spaniel chamada Belle e daquela união nasceram quatro fêmeas: Ada, Primrose, Crocus e Cowslip. Por mais de vinte anos, o Lord trabalhou numa linhagem descendente de Cowslip, que fez seu primeiro cruzamento com outro Tweed Water Apaniel (de nome “Tweed”).

Tweed Water Spaniel. Ao longo da costa escocesa, water spaniels eram utilizados para recuperar aves.

Para manter a linhagem forte e melhorar as aptidões de caça, houve cruzamentos com dois Wavy-Coats pretos (“Sambo” e “Tracer”) e um Setter Irlandês (“Sampson”). Especula-se sobre uma possível utilização de um Bloodhound, mas não há como comprovar essa hipótese. A textura da pelagem dos cães era variada, assim como a cor, que ia do ruivo ao creme.

Ocasionalmente, filhotes do canil do Lorde Tweedmouth eram dados a amigos e parentes. Algumas dessas pessoas criaram os cães e desenvolveram linhagens próprias. Os anos de seleção de tipo, cor e habilidade realizada em Guisachan resultaram na linhagem Ilchester, ancestral dos Goldens atuais.

 

Wavy-Coated Retriever.

Os Wavy-Coated Retrievers usados no desenvolvimento dos Goldens eram normalmente pretos e são os antepassados dos atuais Flat-Coated Retrievers. O Tweed Water Spaniel, um tipo de Water Spaniel da região do Rio Tweed, na Escócia, é uma raça extinta. Entretanto, há relatos de que era semelhante a um pequeno Retriever “cor de fígado” (algo entre marrom e amarelo).

Ao longo da Costa da Grã-Bretanha, os Water Spaniels eram encarregados de trazer comida para casa, graças a sua grande habilidade para o resgate. Conta-se que eram inteligentes, bons nadadores e possuíam grande desejo de trabalhar – como os Goldens.

Flat-Coated Retriever: pensa-se que seja o antepassado direto do Golden Retriever, embora seja mais esguio e tenha um temperamento mais jovial, quase como o do Setter.

Chesapeake Bay Retriever: Este cão resultou do cruzamento da raça do Cão Lesser de St. John com os cães de caça americanos da região.

Labrador Retriever: Outro descendente do Cão Lesser de St. John, partilha com o seu parente distante, o Golden Retriever, uma função de trabalho e uma personalidade semelhante.

 

Filho do Lord Tweedmouth e Lady.

Parentes mais próximos

Curly-Coated Retriever: Atualmente bastante rara, esta raça foi levada para o Reino Unido por pescadores de bacalhau. A sua pelagem é de cão de água, formada por pequenos caracóis à prova de água.

Terra Nova: Descendente do Greater da Terra Nova ou Cão de St. John, é uma raça grande e alegre, ainda utilizada para trabalho de auxiliar na água.

 

Cronologia

1890: Levados por viajantes, os primeiros Golden Retrievers começaram a chegar nos EUA e Canadá.

1894: O filho de Lord Tweedmouth e Lady, a sua Golden Retriever, emigraram para o Texas, passando pelo Canadá.

1903: A raça é aceita pelo Kennel Club of England; são chamados de “Flat-Coats-Golden”.

1904: Um Golden obtem o primeiro lugar numa prova de campo.

1908: Culhan Brass e Culhan Cooper, descendentes diretos do plantel de Lord Tweedmouth, estão entre os primeiros exemplares de Golden exibidos em competição. Eles serão os ancestrais de quase toda criação atual.

1911: Fundação do Golden Retriever Club of England. A raça é reconhecida.

1925: O Golden faz suas primeiras exibições na França. O America Kennel Club registra o primeiro exemplar da raça, que antes era especificada simplesmente como Retriever com alguma anotação quanto à cor.

1927: Primeiro registro como raça separada no Canadá.

1930-1940: Os Goldens se popularizam nos EUA e se espalha pelo mundo.

1938: Fundação do Golden Retriever Club of America.

1977: Os primeiros três cães a alcançar o título de Campeão de Obediência do AKC são Goldens. O primeiro (Ch. Moreland´s Golden Tonka) é fêmea. Hoje a raça está muito difundida na Austrália, Bélgica, Holanda, Suécia, Noruega, Canadá, Japão e, sobretudo, nos EUA.